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Artigos / LUIZ HENRIQUE LIMA

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02.10.2017 | 09h47
Minha delação premiada
Confesso que, ao longo da vida, acumulei fortuna incalculável: riqueza de amizades e exemplos honrados
LUIZ HENRIQUE LIMA

Sonhei que fui conduzido perante o juízo divino. Lá chegando, a promotoria celestial sugeriu que, para abrandar a pena por minhas faltas, deveria revelar fatos e indicar pessoas.

Evidentemente não poderia mentir e eventual omissão não teria qualquer efeito prático, eis que nada é desconhecido pelo tribunal supremo.

Trago agora aos leitores parte do que declarei às autoridades angelicais. Como ainda estou vivo e devo observar alguns impedimentos por força do cargo que exerço, nesta primeira etapa nada direi sobre Mato Grosso.

Indagado sobre pessoas que conheci na atividade política, afirmei que tive a felicidade de conviver com políticos honestos, pessoas de bem e idealistas. Citei meu inesquecível avô, Domingos Machado de Lima, da então pequenina Concórdia.

Poder-se-á argumentar que tal fortuna é incompatível com meu escasso merecimento. Ao Criador caberá o julgamento. Desde já, admito que se falhei não foi pela ausência de bons guias e amigos

Lembrei-me de grandes parlamentares, dignos e corajosos na luta democrática: Lysâneas Maciel, Délio dos Santos, José Frejat, J. G. de Araújo Jorge e Pereirinha. Também os não-parlamentares, como Bayard Boiteux e Herbert de Souza - Betinho.

Militares dignos, corretos e patriotas; também aprendi a respeitá-los: general Milton Silva de Oliveira, capitão Sérgio Macaco, coronel PM Nazareth Cerqueira.

Minha lista de delatados aumentou bastante quando chegamos aos professores.

Que privilégio ter tido tantos mestres extraordinários, desde o primário até o doutorado! Relembro alguns, cada qual com suas características: modestos, espirituosos, brilhantes, exigentes ou meticulosos; todos, porém imbuídos de paixão pelo saber, por compartilhá-lo, aprofundá-lo e torná-lo útil às pessoas e à coletividade.

Professoras Isa e Berenice no primário; Cremildo e Flávio no Colégio Pedro II; Jorge Cláudio, Sonia Pimenta e Aquino no Franco Brasileiro; Reinaldo e João Sabóia na FEA-UFRJ; Bocater no IAG-PUC; Emilio, Tolmasquin e Alessandra na COPPE-UFRJ; Manoel Maurício, Karédakis e tantos mais, cujas lições ainda estudo.

No capítulo da espiritualidade, fui ungido pela sorte.

Tive meu casamento celebrado pelo padre Ítalo Coelho, querido amigo e belíssimo exemplo de sacerdote, tendo como padrinhos o casal presbiteriano Israel e Leni Almeida, doces, serenas e boas pessoas.

Para o espiritismo, fui dirigido por Zenaide Ramalho, boníssima criatura, e acolhido por Rejane, Eduardo e demais amigos da União Fraterna. Com a querida Dalva Magalhães, compartilho a admiração pelo papa Francisco.

Sem esquecer amigos judeus como Arnaldo e Sandra, muçulmanos como Khalil ou ateus como Arbex.

Entre companheiros de trabalho, fui colocado em ambiente seguro, de profissionais competentes, dedicados e brilhantes, composto por pessoas extraordinárias como Jan, Carpilovski, Fátima Regina, Luiz Sérgio, Márcio Pacheco, Francisco, Luiz Wagner e tantos mais do TCU que me envergonho de não citar aqui.

Fui acompanhado e muitas vezes orientado e amparado por pessoas simples, de enorme valor: Izaías Nascimento, professor; Toninho de Praia, sindicalista; Deley do Vidigal, líder comunitário; Valdir Miranda, gari; Jorge, líder da ala dos Duques da Mangueira; Ariel Galvão, da Varig; e Alexandre Farah, advogado.

Claro que de tudo e de todos, a quem mais devo é à família: Vilma e Porthos Augusto, que me acolheram e educaram com amor e sabedoria; Maria Cândida, Maria Vitória e Francisco Henrique, minha razão de viver; Nelly, Marília, irmãos, enfim, todos que a compõem.

Aí está a primeira parte da minha delação. Incompleta e imprecisa, mas sincera.

Quando tantas delações revelam o submundo sórdido de negócios públicos e privados em nosso país, a minha denuncia que, ao longo da vida, acumulei fortuna incalculável, composta pela riqueza de tantas amizades, pelo usufruto gratuito de tantos exemplos honrados e pela preciosidade de viver tantos momentos únicos, nem sempre felizes, mas bastante intensos.

Poder-se-á argumentar que tal fortuna é incompatível com meu escasso merecimento. Ao Criador caberá o julgamento.

Desde já, admito que se falhei não foi pela ausência de bons guias e amigos. Nesse aspecto, fui um grande premiado.

LUIZ HENRIQUE LIMA é conselheiro substituto do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT).


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