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18.09.2017 | 17h53
A corrupção é natural?
Infelizmente, hoje os cidadãos mostram-se incapazes de fazer coisas que não lhes tragam gratificação pessoal
FELIPE GUERRA

Ao ver trecho de uma palestra de Rodrigo Janot sobre combate à corrupção, uma admoestação me chamou a atenção. O procurador-geral da República afirmou que a “corrupção está naturalizada”.

De fato, o procurador está correto, mas não apenas a corrupção está naturalizada, a violência, a educação de péssima qualidade, a saúde caótica, a pífia segurança pública, entre outros, também estão.

A corrupção, por seu grau de disseminação e amplitude, está naturalizada e banalizada. Tanto é verdade que apenas nos importamos com a corrupção quando ela ganha as manchetes dos principais jornais.

Aquela corrupção cotidiana, aquela vaga de deficiente que só por uns minutos você usou, aquele favor junto ao órgão público que lhe permitiu passar à frente da ordem cronológica de atendimento, aquela cola na prova, aquela “mentirinha” para justificar o atraso na entrada ao trabalho, aqueles 100 reais que garantiram seu voto, estas formas de corrupção não nos causam a mesma indignação que a “lava jato”.

Naturalizamos a corrupção e estamos cauterizados em relação a ela. Na verdade, o brasileiro com sua capacidade de adaptação, tem se adequado a esse contexto.

Estamos cauterizados não apenas com o ato de corromper e ser corrompido, mas, sobretudo, com o resultado devastador que a corrupção causa para o meio social

Os mais abastados, assim respondem ao estímulo social: é certo que a corrupção nos toma vagas em hospitais públicos – é tudo ladrão, não vai mudar nunca, façamos um plano privado de assistência médica e hospitalar -; é certo que retira vagas das escolas públicas – é tudo ladrão, não vai mudar nunca, pagamos escola particular -, é certo que impede a estruturação da segurança pública – é tudo ladrão, não vai mudar nunca, contratamos segurança privada -, e assim por diante.

Ou seja, enquanto não for meu filho quem morre na fila do hospital, não tem problema; enquanto não for meu familiar o assassinado, pouco me importo.

Estamos cauterizados não apenas com o ato de corromper e ser corrompido, mas, sobretudo, com o resultado devastador que a corrupção causa para o meio social.

Sob outra ótica, para aqueles que possuem parcos recursos culturais e financeiros, resta apenas o caos de um Estado que permite que suas riquezas vazem pelas milhares de torneiras da corrupção.

Lamentavelmente, a corrupção social (coletiva) ou estatal (institucional) caracteriza-se pela incapacidade moral dos cidadãos de assumir compromissos voltados ao bem comum.

Vale dizer, hoje os cidadãos mostram-se incapazes de fazer coisas que não lhes tragam uma gratificação pessoal.

Por acreditarmos que nossa chance ao sol vale mais que os benefícios à coletividade, contribuímos decisivamente para este contexto. Você, eu, nós somos responsáveis por isso, ainda que por nossa passividade.

Não podemos tratar esse cenário como típico dos tupiniquins, não podemos acreditar que no Brasil tudo pode.

Corrupção não é normal, corrupção não é a regra!

FELIPE GUERRA é presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) - Seccional de Sinop-MT.


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