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Artigos / VILSON NERY

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30.08.2017 | 15h26
Tem um fuzil mirando você
As pessoas a tudo veem, porque as notícias são públicas, mas não reagem, parece que há um sonambulismo coletivo
VILSON NERY

Indago sobre as causas da passividade das pessoas diante do terrível mal que assola o país, consubstanciado no ataque diário a direitos sociais e às riquezas do Brasil – aí incluído o petróleo e às florestas. Após a manobra bem-sucedida de tomar de assalto a gestão do país, um grupo de homens brancos e de meia idade, tratado por setores do judiciário e da mídia corporativa como sujeitos singulares do coletivo “pessoas de bens”, com origens familiares na classe dominante, dão ao país o tratamento que dão aos seus negócios privados.

As pessoas a tudo veem, porque as notícias são públicas, mas não reagem, parece que há um sonambulismo coletivo a imobilizar a sociedade brasileira. Pesquisei sobre o fenômeno do “sono” na obra de medicina legal de Croce Junior (Manual de Medicina Legal, 1998, p. 541) e vi que sono é “um estado fisiológico normal, periódico, caracterizado pela redução da atividade corporal, relaxamento natural dos órgãos dos sentidos e do tono muscular, postura horizontal e, muita vez, semi-sentada, e suspensão do estado consciente”.

Aprendi que mesmo durante o sono as pessoas realizam condutas, inclusive há o exemplo clássico do soldado adormecido que, ouvindo o toque de clarim anunciando a alvorada, supôs tratar de ataque de inimigo e disparou contra pessoas próximas.

A apatia do povo brasileiro não é provocada pelas substâncias neuroquímicas do sono, de modo que é necessário que busquemos as outras causas desta inércia

Portanto, a apatia do povo brasileiro não é provocada pelas substâncias neuroquímicas do sono, de modo que é necessário que busquemos as outras causas desta inércia.

Creio que a mídia corporativa provoca essa letargia popular e as vítimas não reagem aos ataques, isso já foi visito antes. Mas o Armagedon se aproxima. E não é aquele a que se refere Leonardo Boff como sendo o mítico ambiente em que se dará o confronto final entre Deus e os espíritos malignos, o Cristo e o Anti-Cristo conforme o texto bíblico inserido no livro do Apocalipse, 16:16 (Cuidar da terra, proteger a vida, como evitar o fim do mundo; Record, 2010, p. 47).

Digo o fim dos tempos provocado pela guerra de homens contra homens, a gente ainda não deu conta da enorme ameaça que paira sobre o continente sul americano.

Acompanhe o raciocínio.

Os EUA semearam a discórdia no seio da população do Vietnã, e durante os anos de 1959 a 1975 patrocinaram uma sangrenta guerra, com o uso pioneiro de helicóptero e armas químicas, lançadas contra a população civil, tendo por alvo criancinhas vietnamitas e plantações de alimentos. Os ianques foram derrotados no Vietnã, mas destruíram um país e deixaram gerações de vítimas do veneno espalhado com o uso das aeronaves.

A pretexto de responder aos atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos declaram “guerra contra o terror” e desferiram ataques a governos que a seu juízo representariam risco à paz mundial. Assim o presidente George W. Bush prega a intervenção no Iraque, onde o presidente Saddam Hussein, eleito pelo voto popular, seria detentor de um arsenal de armas químicas.

Mas antes investiram contra o desconhecido Afeganistão.

Relatório secreto do Pentágono e da “US Geological Survey” (USGS), o DNPM ianque, mostra que no Afeganistão existiriam muitas riquezas “previamente desconhecidas” e não utilizadas reservas minerais estimadas em $ 1 trilhão de dólares. Isso foi objeto de reportagem no conhecido jornal New York Times (“U.S. Identifies Vast Mineral Riches in Afghanistan”, 14 de junho de 2010 e BBC, 14 de junho de 2010).

Pode-se deduzir que Osama Bin Laden, aliadíssimo ianque, que seria morto na costa do Afeganistão, mas o corpo jamais mostrado e nenhum laudo cadavérico oficial atestando o óbito, pode ter sido mais uma “desculpa” para guerrear em busca do petróleo e outras riquezas minerais.

No Iraque, após bombardeios com armas moderníssimas e uma ocupação que durou cerca de 8 anos, as tropas dos EUA resolvem deixar o espaço e “devolver o território ao povo”. A Águia assassina deixa o Iraque em 2012 e um rastro de 600 mil mortos, maioria mulheres e crianças indefesas residentes num país destruído. Não há governo e nem paz no Iraque atual, e nem mesmo os ianques utilizam o caminho que buscavam para transportar petróleo barato, por absoluta falta de segurança.

Então, resumindo. No Vietnã, no Afeganistão e no Iraque, mesmo depois de matar milhares de inocentes, os Estados Unidos não conseguem obter o petróleo barato.

Resta como opção dedicar atenção para o Mercosul, onde o petróleo da Venezuela e do Brasil, mais as riquezas do subsolo da Colômbia e o gás natural da Bolívia despontam como a melhor opção energética do mundo.  Jeferson Miola, ex secretário do Mercosul em Montevidéu (Uruguai), disse em 2012 (revista Carta Maior) que a união do Brasil e da Venezuela em torno do Mercosul cria a maior reserva de petróleo do mundo. São 310 bilhões de barris de petróleo, segundo a OPEP.

O Mercosul é potência em territórios, são praticamente 17.840.000 km² (considerando todos os países do subcontinente sul americano) contra os   10.180.000 km² da União Europeia, tamanho que é ainda menor com a saída do Reino Unido.

E onde está o fuzil com mira a laser?

Bem, a Venezuela sempre foi um “protetorado” americano. Na maioria dos países do cone sul o esporte mais popular é o futebol. É só ver o Brasil, Paraguai, Argentina, Equador, Colombia, Bolívia etc. Na condição de “quintal ianque”, os costumes e cultura venezuelanos eram impostos pelos Estados Unidos. O esporte mais popular é o beisebol, a paixão nacional ditada pelos meios de comunicação atrelados aos negócios e interesses dos EUA.

Com a assunção de Hugo Chavez na presidência da Venezuela, e a decisão de distribuir a riqueza de petróleo com os empobrecidos e com isso diminuir o lucro dos EUA, foi destravado um processo de desestabilização que dura até hoje.

Em 2002 os cineastas irlandeses Kim Bartley e Donnacha O'Briain produziram o documentário “A Revolução Não Será Televisionada” e mostram como as informações dos meios de comunicação venezuelanos são atreladas aos interesses dos EUA. As intenções dos órgãos militares ianques viram manchetes e editoriais das emissoras de televisão sediadas na Venezuela.

Nesse documentário, produzido em momento de grande ebulição na Venezuela, é mostrado como a burguesia local é contra a distribuição de renda, e que reage batendo panelas após sucessivas derrotas eleitorais. As entidades de empresários patrocinam golpes contra o governo, provocam desaparecimento de produtos das prateleiras dos supermercados e atacam a Democracia.

Se a Venezuela resistir aos ataques dos EUA, e resiste mesmo diante da recusa do sistema midiático em oferecer informações isentas, mentindo diariamente a favor dos espoliadores estadunidenses, o Mercosul sai fortalecido. Caso contrário o caos levará a Venezuela à guerra civil, e considerando que o ianque quer mesmo é petróleo e urânio, e essas “commodities” existem em abundância na Venezuela e no Brasil, é muito fácil prever o próximo alvo.

Antes de acreditar que a Venezuela vive um regime ditatorial, lembre-se que já mentiram para você antes, e o interesse foi simplesmente se apropriar de petróleo a baixo custo.

De fato, as armas que mantém a Venezuela na mira podem se virar contra você.

VILSON PEDRO NERY é advogado especialista em Direito Público.


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