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18.08.2017 | 09h58
A advocacia
Apesar dos grande avanços, está-se liquidando o que ainda resta da nobre e festejada profissão
RENATO NERY

Estou para completar oito lustros do exercício diuturno, integral e ininterruptos da advocacia.

Ensaio há algum tempo paralisar minhas atividades, mas não consigo, pois estou ajuizando poucas causas ultimamente e, ainda, me arrasto com um passivo grande, legado do longo e intenso exercício da profissão.

O passar implacável do tempo leva a saturação. É preciso desocupar o lugar para os mais jovens que entram a toda hora no mercado de trabalho. E na advocacia este número é avassalador, em face de mais de mil cursos jurídicos espalhado por este Brasil afora.

O que fica e o que sobra de tudo isto, além de uma dor nas costas de tanto ficar sentado?

Num balanço superficial, apesar dos avanços digitais, a advocacia continua em pior situação do que quando eu comecei a advogar.

A quantidade de juízes soberbos aumentou. O processo digital, apesar da agilidade, afastou o advogado da salutar convivência com os serventuários da Justiça e colegas nos fóruns. Os julgamentos apressados são cada vez maiores.

O passar implacável do tempo leva a saturação. É preciso desocupar o lugar para os mais jovens que entram a toda hora no mercado de trabalho. E na advocacia este número é avassalador, em face de mais de mil cursos jurídicos espalhado por este Brasil afora

Nas instâncias superiores, com as exceções devidas, em boa parte dos julgamentos colegiados, os relatores se limitam a ler acórdãos, com o “de acordo” dos outros membros que teriam recebido anteriormente os votos.                        

As custas processuais cresceram exponencialmente. O Poder Judiciário ainda sofre de “infinitude”. É fácil e caro lá entrar com um processo, mas difícil é sair.

As prisões ilegais e as conduções coercitivas são efetivadas à revelia dos pressupostos legais.

Bem como, as questionáveis delações premiadas estão colocando nosso ordenamento jurídico de cabeça para baixo, onde se premia criminosos contumazes em prol de uma pretensa justiça, com se não existissem meios legais e legítimos para se apurar crimes.

À revelia de tudo isto que desafia o talento, preparo, e a competência de exímios profissionais, encontram o mar de faculdades de Direito, onde basta ter dinheiro para pagar as anuidades e se tornar um bacharel em Direto. É o triunfo do mercantilismo!            

O Exame de Ordem, forçado pela exagerada demanda, mostra níveis de reprovações assustadores e, mesmo assim, não se consegue livrar o mercado de profissionais despreparados para lidar com os direitos e garantias do cidadão.

A advocacia, neste cenário, se tornou um terreno fértil para lobistas e aproveitadores. Estes pretensos profissionais não sabem fazer um "o" com um copo, mas se valem de relacionamentos privilegiados para vender resultados.

A era digital permitiu que grandes escritórios pudessem, sem sair do lugar, de exercerem a advocacia em qualquer parte do Brasil, com um mínimo deslocamento, em detrimento de bons profissionais locais.

Está-se liquidando o que ainda resta da nobre e festejada profissão.

Enfim, citando Machado de Assis, “saio da vida (profissão) como quem sai tarde do espetáculo: aborrecido”.

RENATO GOMES NERY é advogado em Cuiabá e ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional de Mato Grosso (OAB/MT).


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