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Segunda, 02 de janeiro de 2017, 15h56

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Artigos / EDUARDO MAHON
Pobre país rico
Teimamos em acreditar que leis podeão mudar a realidade social
EDUARDO MAHON

Meus amigos, às vésperas do ano novo, trago más notícias. O Brasil não chegará a lugar algum no ano que vem, nem na próxima década. Triste, né? Pois então. Em meio a tantas urgências do país, a maior das reformas é adiada indefinidamente. Tem gente que pensa ser a reforma política a nossa redentora. Ou a trabalhista. Há quem pense que o problema nacional é tributário. Estudiosos apontam para a questão previdenciária. Alguns radicais exigem a reforma penal, com direito a prisão perpétua e pena capital. São muitas teorias e muitos teóricos sem nenhum dado concreto a ser exibido. Todos nós – todos, sem exceção – sabemos que, no fundo, as coisas não se resolvem por força de decreto. Mesmo assim, teimamos em acreditar que um conjunto de leis poderá mudar uma realidade social. No fundo, já estamos cansados de saber que um país só vai pra frente com educação. Mas educação é como rede de esgoto: não aparece, não dá voto e demora para fazer.

No pós-guerra, países como Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Japão, China investiram maciçamente em educação e tecnologia e hoje conseguiram não só sair da miséria em que viviam, mas despontar em crescimento e distribuição de renda ao lado de tradicionais nações educadas como Holanda, Suíça, Finlândia, Noruega, Suécia, Bélgica e França. O Brasil fica na 60a posição de 76 avaliados no PISA pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. É um desastre. O Brasil ocupa a 51a posição em 68 países em que se mede a velocidade de conexão para troca de dados pela rede mundial de computadores. No Ranking Mundial de Universidades da Times Higher Education, a nossa melhor universidade que é a USP está em 158o lugar e a Unicamp está compreendida entre o grupo de 400-500. Também somos o 8o país mais analfabeto de todo o mundo diz o Comitê de Educação da ONU. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 44% do país não leu um único livro no ano e 30% nunca comprou um livro na vida.

Me dá pena ao ouvir gente inteligente achando que a corrupção será vencida por meio de ações judiciais, de denúncias e condenações. Com índices como os apresentados sobre o Brasil, a cadeia só servirá para substituir um corrupto por outro. Os dados do Índice de Percepção de Corrupção Mundial apontam que, quanto maior o nível de educação de um país, maior é a transparência e menor é a cultura de corrupção. Sendo assim, cruzaram dados com o desempenho do PISA e constatou-se que os países mais transparentes do mundo estão sempre muito bem colocados no ensino de ciências, como Cingapura, Finlândia, Canadá, Holanda etc. Não tem mistério: mais educação gera mais oportunidades, mais competitividade, mais emprego, mais transparência e menos demanda por vantagens ilícitas.

Por isso, o Brasil de 2017 será exatamente o mesmo de 2016. Pior do que isso: é muito provável que o Brasil de 2037 seja o mesmo país injusto socialmente, corrupto e desorganizado, assim como o foi desde as sátiras de Gregório de Mattos Guerra. Não conseguirei deixar um lugar melhor para meus filhos viverem. Dificilmente, meus netos viverão num país mais transparente, mais justo, mais desenvolvido. Poderão ter mais dinheiro que eu, é verdade. Mas não viverão em meio ao desenvolvimento, ficarão ainda mais ilhados num país injusto e violento. Mesmo tendo crescido 200% o orçamento para a educação nos últimos 10 anos, uma fortuna foi desviada. Os alunos ficam pouquíssimo tempo em sala de aula, até porque não há profissionais preparados para o tempo integral. Remuneração, então, nem se diga. De acordo com a OCDE, os professores brasileiros estão no fim da fila em termos de salários no mundo e o gasto na educação pública fica em 34o lugar numa lista de 35 países avaliados.

Meus amigos, estourem champanhes. Comam a ceia, as uvas e cerejas. Festejem o ano que entra. Não há crime, nem é pecado. Saibamos todos, porém, que se trata de uma festa egoísta. Milhões de brasileiros ficarão para trás não só em 2017, como nos próximos 20 anos. Nas campanhas eleitorais, os candidatos não falam uma única palavra sobre educação, nem muito menos nossos representantes parlamentares. Isso nunca deu voto. O que dá voto é inauguração de obras públicas: praça, estrada, viaduto. Sabe o pior? É que você que conseguiu ler esse artigo até o final continua aplaudindo esse tipo de demagogia em inaugurações festivas. Portanto, não reclamem do pivete que rouba o rolex no sinaleiro ou da falta de consciência social do corrupto engravatado que preda os cofres públicos. Não é questão de polícia. Nunca foi. É questão de educação que teimamos em não enxergar. Pobre país rico...

Eduardo Mahon é advogado e escritor.


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