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02.04.2018 | 16h49
Delegada foi ao TJ para tentar impedir sua oitiva nos “grampos”
Desembargador só recebeu processo uma hora antes de oitiva e não teve tempo para analisar o caso
Alair Ribeiro/MidiaNews
A delegada Alana Cardoso, que evitou prestar depoimento em ação
LUCAS RODRIGUES
DA REDAÇÃO

A delegada Alana Cardoso chegou a impetrar um habeas corpus junto ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT), visando ser dispensada de prestar depoimento na ação penal que apura os crimes militares cometidos no esquema de interceptações que ocorreu no Estado.

A medida foi ingressada no dia 24 de março, dois dias antes da data de sua oitiva. Porém, o desembargador Luiz Ferreira não conseguiu analisar o pedido a tempo e a delegada foi obrigada a depor na tarde do dia 26 daquele mês.

Na ocasião, Alana também pediu para que o Conselho de Sentença (formado por um juiz e quatro coronéis) a desobrigasse de prestar depoimento, mas o requerimento foi negado.

O esquema dos grampos funcionava por meio da tática de “barriga de aluguel”, quando números de pessoas que não têm qualquer relação com investigações policiais são inseridos de maneira disfarçada – sob outras identificações –, em pedidos de quebra de sigilos telefônicos feitos à Justiça.

A delegada foi citada na investigação por ter participado da Operação Forti e Querubim, ocasião em que foram incluídos indevidamente nos pedidos de interceptação os números de pessoas ligadas ao ex-secretário chefe da Casa Civil, Paulo Taques: Tatiana Sangalli Padilha (ex-amante) e Caroline Mariano dos Santos (ex-assessora).

No habeas corpus, Alana disse que é investigada pela Corregedoria da Polícia Civil de Mato Grosso pela suspeita de ser a autora do pedido para inclusão de tais números.

Ela alegou que em outubro do ano passado também passou a ser investigada no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por ordem do ministro Mauro Campbell, relator do inquérito dos “grampos” que tramita naquela Corte.

Não houve tempo hábil para que este julgador se manifestasse acerca da possibilidade de dispensa da paciente na audiência levada a cabo na data de ontem [26]

Alana relatou que estava na iminência de sofrer constrangimento ilegal, pois teria a garantia constitucional de não se autoincriminar prestando o depoimento, em razão de já ser investigada no STJ.

Segundo ela, como o inquérito no STJ tramita sob sigilo, ela não poderia quebrar o segredo das investigações, “daí por que correria o risco de ser presa em flagrante pela suposta prática do crime de falso testemunho na modalidade calar a verdade”.

A delegada reclamou que fez o mesmo pedido ao Conselho de Sentença no dia 20 de março, mas até a data em que ela impetrou o habeas corpus tal requerimento não havia sido analisado.

Sem tempo hábil

O desembargador Luiz Ferreira afirmou que apesar de a medida ter sido ingressada no dia 24 de março, os autos só chegaram em seu gabinete às 12h17 do dia 26, ou seja, faltando pouco mais de uma hora para o depoimento da delegada.

“Ademais, por ser a matéria vertida nesta impetração bastante complexa – pois sua análise demanda a oitiva da mídia audiovisual referente às audiência realizadas nos dias de 9 e 16 deste mês e ano que contem a inquirição da testemunha Adriana Saturnino, então Secretária Adjunta de Segurança Pública –, não houve tempo hábil para que este julgador se manifestasse acerca da possibilidade de dispensa da paciente na audiência levada a cabo na data de ontem [26]”.

O magistrado também explicou que como havia pedido semelhante pendente de análise perante o Conselho de Sentença, poderia haver risco de ele cometer “supressão de instância” caso decidisse sobre a situação.

Desta forma, como a delegada já havia prestado a oitiva no momento em que o habeas corpus foi analisado, o desembargador Luiz Ferreira a intimou para que ela se manifeste se tem interesse em prosseguir com a medida.

“Diante do exposto, determino que os impetrantes manifestem-se, no prazo de 24h, se tem interesse no prosseguimento da vertente ação mandamental, pleiteando o que entender necessário, sob pena de sua extinção sem análise do mérito, em razão da perda superveniente do seu objeto”, diz trecho da decisão, assinada na última terça-feira (27).

O depoimento

Na oitiva realizada em 26 de março, Alana Cardoso afirmou que chegou a ficar responsável por ouvir as conversas captadas no celular da publicitária Tatiana Sangalli, enquanto o delegado Flávio Stringueta ouvia as interceptações de outros alvos.

Ela também denunciou ter sido interrogada de forma ilegal pelo então secretário de Estado de Segurança Pública, Rogers Jarbas, que é investigado por ter tentado atrapalhar as investigações. Segundo ela, o objetivo de Rogers era obter informações para atingir o promotor de Justiça Mauro Zaque – ex-secretário de Segurança e autor da denúncia sobre a existência de grampos em Mato Grosso.

Alana afirmou que trabalhou em conjunto com o delegado Flávio Stringueta na Operação Querubim. Essa operação investigou a suspeita de que Tatiane Sangalli estaria envolvida com o ex-chefe do crime organizado no Estado, João Arcanjo, e que a dupla estaria tramando contra o governador PedroTaques, com a ajuda de Caroline Mariano.

Posteriormente, Stringueta afirmou ter descoberto indícios de que a história teria sido inventada por Paulo Taques para poder grampear a ex-amante e a assessora. 

"Eu e o Dr. Flávio trabalhamos em conjunto, pois era muito perigoso pra nós e era um assunto muito sério. Era uma ameaça ao governador Pedro Taques, ele havia acabado de tomar posse, e qualquer atentado contra ele seria algo que abalaria tudo".

A delegada disse que ela e Stringueta, na primeira quinzena das investigações, dividiram os trabalhos de ouvir as conversas dos alvos.

"Nós trabalhamos juntos: o Dr. Flávio acompanhou uns números e eu outro. Eu ouvi na primeira semana a Tatiana Sangalli".

"Eu só acompanhei o áudio nos primeiros dias, quando ainda estávamos sob o entendimento de que havia uma ameaça à integridade física do governador e do chefe da Casa Civil. A partir do momento que vi que não havia, eu falei para o Dr. Flávio que não ia mais acompanhar, porque eu estava acumulando dois cargos pesadíssimos dentro da Inteligência".

Alana defendeu que não houve ilegalidade nas escutas feitas nos números de Tatiana e Caroline.

"O principal alvo era o reeducando [Arcanjo], não elas, só que não havia contato direto com ele, só com familiares, então nós identificamos que não havia interesse na operação Forti pra prorrogação. Eu fui conversar com o delegado para dar continuação porque havia suspeitas na conduta das mulheres. Chegando lá o Dr. Flávio disse que já havia recebido essa informação através de denúncia anônima".

"Esses dois números foram ouvidos só numa quinzena, mas nem todos foram ouvidos, então não há nada de ilegal nesse trabalho".

A defesa do coronel Evandro Lesco perguntou o porquê de os números de Tatiana e Caroline não terem constado no relatório de inteligência da operação. Todavia, Alana preferiu ficar em silêncio.

Leia mais sobre o assunto:

Delegada diz que ouviu interceptações da ex-amante de Paulo

Delegada acusa Jarbas de armar “cilada” para atingir Mauro Zaque

Delegada afirma que secretário agiu ilegalmente ao interrogá-la

Delegada acusa ex-adjunta da Sesp por “grampo” em operação

Juíza suspeita que delegada tenha feito "barriga de aluguel" em ação


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