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J. Estadual / GRAMPOS

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09.02.2018 | 16h32
Testemunha: cabo falou da vida íntima de deputada e governador
Audiência foi conduzida pelo juiz Murilo Mesquita, da 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar
Alair Ribeiro/MidiaNews
O cabo Gerson Correa, que é um dos réus da ação
CAMILA RIBEIRO E THAIZA ASSUNÇÃO
DA REDAÇÃO

O juiz Murilo Moura Mesquita, da 11º Vara Criminal Especializada da Justiça Militar da Comarca de Cuiabá, deu início na manhã desta sexta-feira (9) às audiências de instrução da ação penal que investiga militares presos por suposto envolvimento no esquema de escutas telefônicas clandestinas operado em Mato Grosso.

São réus do esquema o ex-comandante da Polícia Militar, coronel Zaqueu Barbosa; os coronéis Evandro Alexandre Lesco e Ronelson Barros, ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar, respectivamente; o coronel Januário Batista; e o cabo Gérson Correa Júnior. Dos cinco, apenas Zaqueu e Gérson continuam presos.

Durante a audiência, o juiz Murilo Moura determinou o levantamento do sigilo do processo.

Disse ao juiz Jorge Alexandre que tinha tomado conhecimento dessa situação, ele se mostrou muito chocado, disse que ele foi enganado, que haviam armado aquilo pra ele

Ex-secretário é ouvido

O promotor de justiça e ex-secretário de Estado de Segurança Pública, Mauro Zaque, é uma das testemunhas arroladas no processo e foi o primeiro a ser ouvido na manhã de hoje.

Ele foi o autor da denúncia dando conta de que os “grampos ilegais” estavam sendo realizados pela alta cúpula da Polícia Militar de Mato Grosso.

No início de seu depoimento, Zaque disse que tomou conhecimento da prática de “barriga de aluguel” por meio de uma denúncia que lhe foi entregue em um envelope fechado, mas não lhe cabia a investigação dos fatos.

Desta forma, reiterou ter relatado os fatos ao governador Pedro Taques (PSDB), inclusive fazendo uma apresnetação em power point.

Ele disse também que cabia ao governador determinar o afastamento de possíveis envolvidos na prática ilegal.

“Como secretário de Estado, não podia apurar os fatos. Fiz um relatório e encaminhei ao governador Pedro Taques. Como não vislumbrei nenhuma investigação, pedi para deixar o Governo”, lembrou o secretário.

“Juiz apontou armação”

Ainda no seu depoimento, o promotor afirmou que esteve em Cáceres para falar com o juiz Jorge Alexandre Martins Ferreira – que autorizou interceptações telefônicas por meio das quais foram feitas a “barriga de aluguel”.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Murilo Moura

O juiz Murilo Moura, que conduz a audiência

"Fui várias vezes a Cáceres como secretário. E a única vez que estive lá para tratar desse assunto foi para falar com o juiz Jorge Alexandre. Disse a ele que tinha tomado conhecimento dessa situação. Ele se mostrou muito chocado, disse que foi enganado, que haviam armado aquilo para ele. Eu disse que sabia e que havia levado para o governador tomar providências”, afirmou Zaque.

“Interesses eram evidentes”

 

O ex-secretário afirmou que as interceptações ilegais não guardavam qualquer relação com um possível desvio de conduta de policiais militares envolvidos no caso.

“Isso não era para atender interesse da Polícia. Os interesses eram outros. Estava evidente a atuação de ex-secretários de Estado. Esses não foram atos praticados pela Polícia. A corporação foi usada para outros interesses”.

“O que eu vi de imediato é que havia barriga de aluguel e verificando quem era as vítimas e eram evidente os interesses”, afirmou o ex-secretário.

Entre as vítimas da chamada “grampolândia”, estavam políticos de oposição ao Governo, como o ex-candidato ao Palácio Paiaguás, jornalista José Marcondes Muvuca, e a deputada estadual Janaina Riva (MDB).

Troca de comando

Alair Ribeiro/MidiaNews

Lesco e Cabo Gerson

O coronel Lesco (de farda) e o cabo Gerson (de camisa bege): réus na ação

Ainda em seu depoimento, Zaque disse que nunca tinha ouvido falar sobre qualquer conduta ilegal praticada pelo coronel Lesco – um dos réus – antes do esquema dos grampos.

“Sempre tive um relacionamento de respeito com ele, nunca ouvi falar nada dele envolvido com algo de errado, salvo esse fato que tomamos conhecimento. Com relação ao coronel Januário (réu), não tenho conhecimento do que o levou a fazer parte disso”,disse.

“Quando tomei conhecimento dos fatos, disse ao governador que não teria condições de permanecerem no cargo. O governador foi a São Paulo e pediu para eu fazer a troca de comando e esclareci todos os fatos ao coronel Zaqueu Barbosa, que estava com o Airton Siqueira no dia”, lembrou o ex-secretário. A troca, no entanto, não chegou a ser realizada.

Ele disse, contudo, não ter conhecimento dos fatos que levaram médicos e alguns militares a também serem “grampeados”.

Grampeada revela dificuldade em arrumar emprego

A ex-servidora da Casa Civil, Gisele Fonseca Bergamasco, também foi ouvida durante a audiência. Ela estava no rol de pessoas grampeadas no esquema. O telefone que ele usava estava registrado em nome de seu pai, Carlinhos Bergamasco.

“Eu trabalhava na Casa Militar desde 2005, pedi exoneração em dezembro de 2015 e fiquei sabendo pela imprensa que meu número que estava grampeado”, disse.

Sou advogada, tive certa dificuldade em achar emprego por ter o número exposto

A defesa do coronel Zaqueu perguntou à testemunha se ela teve informações de sua vida privada divulgadas por meio do esquema.

"Sou advogada e tive certa dificuldade em achar emprego por ter o número exposto", respondeu ela.

Questionada sobre as razões que poderiam ter levado o coronel Zaqueu a interceptá-la, Gisele respondeu: “Não sei, o que posso dizer é que sou casada com policial militar há 16 anos".

Grampos & intimidades

Outra testemunha ouvida nesta manhã foi Mario Edmundo Costa Marques Filho, que é amigo do cabo Gerson Correa.

Ele disse ter tomando conhecimento de que seu número de telefone, de seu irmão e de sua esposa estavam entre os interceptados ilegalmente.

“Procurei o Gerson porque fui exposto. Ele me tranquilizou dizendo que só havia acontecido um equívoco”, disse Filho.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Mario Edmundo

Mario Filho, com quem cabo Gerson falava da intimidade de políticos

Questionado pelo promotor Alan Sidney, a testemunha também falou sobre conversas que teve com o cabo Gerson relativas à vida pessoal de alguns políticos, como a deputada Janaina Riva e o governador Pedro Taques. O canbo Gerson teria tratado, inclusive, da vida íntima de Taques.

“Ele fez alguns comentários informais. O Gerson sempre frequentou minha casa. Eu sabia que ele trabalhava com interceptação, se era ilegal ou não eu não sei. Ele fazia comentários de algumas pessoas, mas nunca disse que soube por que estava ouvindo alguém em tal processo", afirmou o depoente.

“Arregaçar promotor”

Ao longo de seu depoimento, Mario Filho também reiterou que seu amigo Gerson disse-lhe que nunca havia ganhado dinheiro por meio da prática de grampos. De todo modo, afirmou que poderia ganhar já que teria recebido ofertas nesse sentido.

Durante a audiência, foi citado o episódio em que Gerson mandou uma mensagem via whatsapp para Mario dizendo que iria “arregaçar o promotor” Mauro Zaque.

Na avaliação de Mário, contudo, a declaração não era uma ameaça.

“A gente trocou mensagem quando ele ainda não estava preso e  le falou que era uma armação do promotor e ele usou o termo ‘arregaçar’. Eu entendi que  ele quis dizer que ia cobrar a verdade, não se vingar”, afirmou a testemunha.

Questionado pelo juiz se teme por sua vida, Mario Filho disse que sim, pois “está lidando com a alta esfera da polícia”.

O Gerson me disse que (a sala usada para interceptação) era para um escritório de contabilidade. Não disse que era policial militar

Locação de sala

Por volta do meio-dia, teve início o depoimento de André Pozzeti, proprietário da sala comercial localizada na região central de Cuiabá e que servia de base para as atividades de interceptações telefônicas da PM.

Ele disse que foi procurado pelo cabo Gerson, que tinha a intenção de alugar o imóvel por um período de seus meses. O valor do aluguel foi fixado, segundo ele, em R$ 1,5 mil mensais.

Pozetti afirmou que, em nenhum momento, teve conhecimento de que a sala seria usada para a prática de escutas ilegais.  

“O Gerson me disse que era para um escritório de contabilidade. ele não disse que era policial militar. Os pagamentos eram feitos em dinheiro e de forma adiantada. Depois da locação, não fui mais ao imóvel. O Gerson disse que não ficaria lá, mas uma sócia dele”, afirmou a testemunha.

Por fim, ele afirmou que nunca viu os réus Zaqueu, Barros e Lesco no escritório.

Após a oitiva de Pozetti, a audiência foi suspensa, com retorno previsto para às 13h30.


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