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09.03.2018 | 15h11
Ex-Sesp: “Delegado montou operação para investigar o Governo”
Rogers Jarbas é suspeito de ter atuado para atrapalhar a investigação das escutas ilegais
Alair Ribeiro/MidiaNews
O ex-secretário de Segurança Pública, Rogers Jarbas, que isentou governador
LUCAS RODRIGUES E THAIZA ASSUNÇÃO
DA REDAÇÃO

O ex-secretário de Segurança Pública, Rogers Jarbas, investigado na Operação Esdras, afirmou que o governador Pedro Taques (PSDB) nunca tratou com ele sobre o esquema das interceptações clandestinas que operou no Estado, mas que pediu que os secretários à época visitassem os acusados que foram presos.

Ele também afirmou que o delegado Fávio Stringueta montou uma operação simulada para investigar a atual gestão do Governo do Estado.

Rogers prestou depoimento nesta sexta-feira (09), na 11ª Vara Militar do Fórum de Cuiabá, na ação penal que apura os crimes militares relativos ao caso.

São réus do esquema o ex-comandante da Polícia Militar, coronel Zaqueu Barbosa; os coronéis Evandro Alexandre Lesco e Ronelson Barros, ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar, respectivamente; o coronel Januário Batista; e o cabo Gérson Correa Júnior. Dos cinco, apenas Gérson continua preso.

O esquema funcionava por meio da tática de “barriga de aluguel”, quando números de pessoas que não têm qualquer relação com investigações policiais são inseridos de maneira disfarçada – sob outras identificações –, em pedidos de quebra de sigilos telefônicos feitos à Justiça.

De acordo com Rogers, que é suspeito de ter atuado de forma ativa para atrapalhar as investigações dos grampos e chegou a ser preso no ano passado, nem o governador nem a Polícia Militar tinham conhecimento das ilegalidades investigadas. 

Ele disse que se sentia triste com as prisões dos envolvidos e pediu que nós visitássemos os presos, por solidariedade

"Eu vou repetir isso até o final: a Polícia Militar não tinha conhecimento da ilegalidade desse caso. Até hoje eu não sei o que ocorreu de verdade".

"Eu nunca ouvi nada da boca do governador sobre grampos. A única coisa que o governador queria saber de mim era sobre Segurança Pública, índices".

"Solidariedade" (atualizada as 10h57)

De acordo com Rogers, o único pedido de Taques em relação ao caso foi para os secretários visitarem os acusados que foram presos por suposto envolvimento no esquema.

No ano passado, além do coronel Zaqueu Barbosa e do cabo Gérson Ferreira, também foram presos o major Michel Ferronato; o ex-chefe da Casa Militar, Evandro Lesco; seu adjunto Ronelson Barros; a esposa de Lesco, Hellen Lesco; o ex-secretário de Justiça e Direitos Humanos, Airton Siqueira; o ex-chefe da Casa Civil, Paulo Taques; e o próprio Jarbas. Com exceção do cabo, todos foram posteriormente soltos.

"A única vez que ele falou sobre isso foi em uma reunião com todos os secretários. Ele disse que se sentia triste com as prisões dos envolvidos e pediu que nós visitássemos os presos, por solidariedade".

"Nunca o governador tratou nada comigo sobre grampos".

Rebateu delegada (atualizada às 11h20)

O ex-secretário negou que tenha tentado investigar transversalmente o promotor de Justiça Mauro Zaque, autor da denúncia, durante a oitiva da delegada Alana Cardoso. 

Jarbas explicou que apenas tomou providências em relação ao ofício da juíza Selma Arruda, que apontou possíveis ilegalidades em operações em que a delegada atuou.

"Quando eu recebi o documento da Selma Arruda, eu liguei para Alana e ela foi até a secretaria. Quando eu mostrei a informacao para ela, ela se desesperou e pediu para que eu ouvisse ela. Eu disse que não, que tinha uma reunião. Ela pediu uma sala para fazer a oitiva dela. Ela sentou lá e escreveu o depoimento. O Gustavo Oliveira [então adjunto e atual titular da Sesp]  me ligou dizendo que ela tinha terminado e que era pra eu assinar".

A Operação Querubim é uma farsa. O Stringueta disse que recebeu uma denúncia anônima, mentira

"Eu fui, li o depoimento, vi que ela estava dizendo a verdade, mas detectei que estavam faltando nomes. Questionei se ela tratou sobre isso com o Paulo Taques. Ela disse que não. Perguntei se ela falou com Mauro Zaque. Ela disse que não também. Disse que tratou tudo com a delegada Alessandra Saturnino. Ela disse que queria falar mais algumas coisas, devolvi o papel, ela escreveu mais algumas linhas sobre o trabalho dela na Polícia Civil. Antes dela sair ainda disse se ela queria falar com o delegado geral da Polícia Civil, então liguei para ele poder atender ela".

Rogers rebateu a versão dada pela delegada Alana, que relatou ter sido coagida a prestar depoimento ao então secretário, medida que seria ilegal.

"Ela veio dizer que perguntei um monte de coisa sobre o Mauro Zaque. É mentira, tudo mentira, não quis investigar nada até mesmo porque eu não tinha os documentos. Eu só tinha o documento da Selma. Eu só não podia me omitir". 

Jarbas responsabiliza Mauro Zaque (atualizada às 11h25)

Durante o depoimento, Rogers Jarbas disse ser "mentira" a versão dada pelo ex-secretário de Estado de Segurança, promotor de Justiça Mauro Zaque, de que a denúncia sobre os grampos chegou para ele em seu gabinete em um envelope. 

"Jamais um documento ou dossiê apareceria na mão do secretário de Segurança sem passar por uma longa rotina administrativa e de protocolos de segurança. É uma pura mentira isso", disse. 

A defesa do coronel Zaqueu Barbosa complementa que Mauro Zaque disse que o envelope chegou em meio a diversos convites. 

"Entram 100 convites por dia lá, tudo vai para o chefe de gabinete, de 100, ele separa três, quatro e entrega para o secretário. A mesa do secretário é uma mesa limpa, ele não despacha na mesa dele, ele despacha na mesa de reunião com o chefe de gabinete e designa tudo. Quando chega um envelope estranho, vai direto para análise da Secretária de Inteligência. É mentira esse história. A não ser que envelope chegou lá voando", afirmou. 

Acusou Stringueta (atualizada às 11h30)

Rogers ainda acusou o delegado Flávio Stringueta, um dos responsáveis pela apuração do caso, de ter armado uma operação para investigar o Governo do Estado.

Stringueta conduziu a Operação Querubim, que apurou suposto plano da ex-amante de Paulo Taques, Tatiane Sangalli,  para prejudicar o governador, a mando do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro. As investigações apontaram que Paulo Taques teria inventado a história para conseguir interceptar Tatiane e a então secretária de seu escritório, Caroline Mariano.

"A Operação Querubim é uma farsa. O Stringueta disse que recebeu uma denúncia anônima, mentira. A delegada Alana já tinha passado a informação para ele. Ele montou essa operação para investigar o Governo, porque é contra o Governo, é só ver os posicionamentos nas redes sociais dele, sobre RGA, essas coisas".

O delegado Flávio Stringueta também foi o responsável por pedir o afastamento de Rogers do comando da Sesp no ano passado, medida que foi acatada pelo desembargador Orlando Perri, magistrado que posteriormente mandou prender o então secretário afastado.

"A intenção dele não era investigar ameaça ao Governo. Eu acredito que a verdade vai vir à tona. O Stringueta deu continuidade a uma ilicitude da Alana e Alessandra [Saturnino, também delegada]". 

"Nunca sonhei com um negócio desses" (atualizada às 12h15)

Ao final da oitiva, Rogers reforçou sua versão no sentido de que nem a Polícia Militar nem o governador tinham envolvimento com o esquema.

"O governador Pedro Taques nem gostava de falar sobre o caso. Quando aconteceu a prisão dos militares, a única coisa que ele fez foi se solidarizar. Ele nunca tratou de grampos"

"O governador soempre gostou de tudo certinho, 'preto no branco', sempre documentou tudo. Nunca sonhei com um negócio desses, tanto que tomei um susto quando soube".

Investigado

Conforme as apurações, Rogers Jarbas teria cometido diversos atos no intuito de atrapalhar as investigações sobre os grampos.

Um destes atos teria sido usar o tenente Michel Ferronato, do setor de Inteligência da Secretaria de Segurança, apontado como seu “braço direito”, para cooptar e coagir o tenente-coronel José Henrique Costa Soares a ajudar o grupo.

A coação foi revelada por Soares em depoimento prestado no dia 16 de setembro à delegada Ana Cristina Feldner.

"O Secretário de Segurança Pública, ao que parece, demonstra ser personagem ativo no grupo criminoso. Basta lembrar que o Major PM Michel Ferronato, homem de confiança de Rogers, foi o interlocutor designado para cooptar o PM Soares, prometendo, em troca de provas e informações sigilosas sobre o andamento das investigações contra si, a promoção de Soares ao coronelato, uma vez que, segundo declarações da testemunha: ‘o MJ Ferronato disse que a situação em desfavor do secretário Rogers Jarbas estaria indo longe demais’”, diz trecho da decisão deo desembargador Orlando Perri, quando determinou a prisão de Rogers.

O desembargador afirmou, ainda, que, mesmo com a determinação de afastamento do cargo e o uso de tornozeleira, Jarbas não perdeu a influência e credibilidade no meio policial.

Como exemplo, afirmou que o sindicato dos policiais civis, ao invés de apoiar a “apuração dos fatos”, preferiu marcar uma sessão extraordinária para deliberar sobre “a postura da categoria perante as medidas decretadas em face do delegado de Polícia, Rogers Elizandro Jarbas”.

“Antes mesmo do cumprimento da ordem por mim proferida, determinando o afastamento do secretário de Segurança Pública, cerca de quarenta delegados, que deveriam estar participando de um curso, ‘marcharam’ até o Tribunal de Justiça, em solidariedade ao seu ‘colega’. Sua atitude, uma vez mais, demonstrou ousadia em querer afrontar o Tribunal de Justiça, expondo sua força e prestígio perante os Delegados de Polícia do Estado”, afirmou.

Ainda segundo as investigações, Rogers teria obtido um depoimento da delegada Alana Cardoso de forma ilegal, mediante coação, no intuito de investigar de forma transversal o promotor de Justiça Mauro Zaque, autor da denúncia sobre os grampos.

Também pesa contra ele a suspeita de ter transferido uma agente da Sesp para a unidade onde os investigados prestavam depoimentos sobre o esquema, no intuito de obter informações privilegiadas, além de ter concedido dados sigilosos sobre a investigação ao ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques.

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