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17.07.2020 | 14h34
Carta ao governador
Entendo que educação é um assunto de interesse público,
EDUARDO MAHON

Caríssimo governador, ontem gravei um programa falando sobre educação estadual em tempos de pandemia. Fiquei com vontade de escrever ao senhor sobre esse tema.

Tomo a liberdade de publicar essa cartinha porque entendo que educação é um assunto de interesse público, tão importante quanto a saúde, inclusive. De qualquer forma, vejo muita gente falando sobre educação remota nessa quarentena. Trata-se, caro Governador, do mais embuste que já disseram sobre educação.

Antigamente, usaríamos a expressão “pra inglês ver”. É o caso do ensino fundamental e médio via internet.

É até simples explicar porque a educação remota não vai funcionar. Como sou doido por método, passo a listar as razões:

1) educação por internet só funcionaria se existisse acesso universal à internet. Parece óbvio, mas não é. Uma turma que já se esqueceu de como é ser pobre encasquetou com o “ensino remoto” como se todos os estudantes tivessem tablet, celular ou computador em casa com uma conexão suficiente para assistir e interagir com os professores, o que é uma chapada ilusão. Só o fato de 50% dos estudantes não terem acesso à rede mundial de computadores já seria suficiente para inviabilizar essa baboseira.

2) educação por internet só funcionaria num ambiente favorável. Vamos imaginar, só por um minuto, como é ser pobre. Mas de 10 milhões de brasileiros vivem em casas superlotadas. Isso significa que não há ambiente escolar possível para o ensino remoto de nenhuma natureza. Não é preciso ter ar condicionado, claro. Mas um quarto, uma sala, um cantinho para o estudo. Isso não há.

3) os professores precisam de treinamento para a gravação, para lidar com um sistema absolutamente desconhecido, inserindo o conteúdo, imagens, documentos, material de apoio. Isso não existe e não é fácil construir em poucos meses. Infelizmente, os professores também são pobres. Parece que não, mas a verdade é essa.

Não estou aqui apenas para fazer dessa cartinha um muro de lamentações.

De forma alguma. Acho que devo dar um pitaco, por que não? É curioso como nós, brasileiros, abandonemos experiências que funcionaram por ideias mirabolantes. Milhões de cidadãos assistiram e se qualificaram com as vídeoaulas. Vídeoaulas? Juro! Lembra do telecurso, aqueles que começavam nas madrugadas e, aos domingos, eram reprisados? Tenho para mim que o caminho é esse.

O pobre não tem computador, mas tem televisão. Todos os canais de televisão em Mato Grosso recebem dinheiro de publicidade oficial. Não vejo problema algum de transmitirem aulas gravadas por uma equipe de professores bem qualificados que, aliás, não faltam. A TV Assembleia também é outro veículo que poderia servir a esse objetivo. Uma programação recheada de aulas em horários alternativos, já pensou? Claro que parece retrô, mas não deixa de ser muito mais eficaz do que o tal “ensino remoto”, via internet.

É claro que acredito no futuro. Não sou nostálgico. Mas já fui pobre. Pobre de “marré deci” como se dizia antigamente. O pobre se vira como pode. São 97% com televisão contra 50% sem internet em casa, os números não mentem e podem ensinar. No caso da educação pública, não aquela para quem pode pagar um colégio que passa as tarefas pelo tablet, pelo celular da moda, a saída seria estruturar um bom programa de teleaulas para mitigar o incomensurável prejuízo do aprendizado. Resolve? Claro que não. Mas indica um caminho, sugere um ritmo, uma sequência, uma possibilidade.

Estou vendo as escolas municipais e estaduais baterem a cabeça com cada professor dando aulas aleatórias. Que tiro no escuro! Não funciona porque os professores estão falando com as paredes. 

Vai por mim, Governador. Contrate uma boa equipe de produção para oferecer essa alternativa. Aproveite e não esqueça as aulas de história, geografia e literatura mato-grossense, uma obrigação instituída em lei que, até o momento, é outra ilusão. Não falta material. Temos muitos livros que podem ajudar a compor uma bibliografia básica. Vou ser franco com o senhor: nem sempre para entrar no futuro deve-se abandonar o passado. Marque um ponto importante, Governador.

Obrigado pela atenção. Forte abraço!

Eduardo Mahon é advogado e escritor.


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